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Sempre ouvi dizer que a vida ensina e que o tempo cura tudo. Mas hoje preciso contar que certas coisas a vida ainda não fez o favor de me ensinar e que o tempo se atrasou e ainda não veio me libertar de uns desejos.
Vou começar por eles. Eu queria umas coisas que nunca vou ter. Queria ser mais alta. Queria ter o pé mais bonito. Queria ter cabelos mais pesados. Queria seios menos fartos. Um coração menorzinho. Uma sensibilidade contida, pois a minha nunca se segura. Queria que esse sentimento que nunca dorme ou cala me deixasse por algumas horas. Mas não tem jeito. Sou eu e meus defeitos, eu e toda essa enxurrada de emoção, amor, tumulto, eu e essa multidão. Porque eu sou uma multidão todos os dias. E isso me assusta.
O tempo nem sempre cura tudo. Tenho feridas que já cicatrizaram, mas que insistem em latejar quando o dia está nublado. Tenho mágoas que já foram superadas, mas se lembro bem, se lembro forte, se penso nelas eu choro. E o choro dói, dói, dói como se fosse ontem. Tenho vontades que nunca passam. Tenho desejos que nunca se apagam.
A vida me ensinou a perdoar os outros. Mas fez questão de me mostrar que a gente pode perdoar sem esquecer. Minha memória é boa, sei quem pisou na bola. Aceito que as pessoas errem uma ou dez vezes, desde que se arrependam com o coração. Arrependimentos da boca para fora nunca me convenceram, apesar de eu já ter caído em ladainhas toscas sem fim.
A vida me ensinou a me perdoar. Me condeno, me mando para a cadeia, para a solitária. Cumpro minha pena e me descanso. E deixo os problemas. E vivo a vida sem guardar.
Dói ver o perdão da boca pra fora. E ver a mudança de comportamento de quem condenava comportamentos alterados. Eu só sei perdoar de coração. Só sei perdoa na inteireza do meu ser.
Tenho uma mania de ser fortona. Sorrir depois da rasteira. Me levantar. Me resolver. Me dar um jeito. Me reconstruir. Nunca acho justo dividir assuntos sérios e profundos por pensar que ninguém tem que ouvir minhas lamúrias, tristezas, coisas chatas e ruins. E vou me virando sozinha.
Quer saber uma verdade? Isso cansa. Sei que eu não sei nada, apenas me sintonizo com minhas emoções. Não posso ajudar muito, apenas escuto o meu coração. Ele fala tanto que deixa tonta. Cansei de ser forte, cansei de não pedir ajuda, cansei de tentar fazer tudo ao mesmo tempo, cansei de tomar café pensando no que me espera logo mais, cansei de não conseguir sossegar meu pensamento, cansei de esconder meu lado frágil, inseguro, cansado. Cansei de aceitar as minhas imperfeições sozinha. Por favor, me aceite também.
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